2018/05/08

Criação de bébés para venda no Paço ducal de Vila Viçosa no sec. XVI

Com os cavalos, com os bovinos ou com as galinhas. Na capoeira um galucho de raça para galar as 20 galinhas que darão muitos pintainhos que crescidos se venderão e se faz bom negócio. Agora cara ou caro amigo substitua as alimárias por pessoas e terá o que os fidalgos mais opulentos e mais cristãos do reino de Portugal, faziam no século XVI.
" O relato da existência de escravos reprodutores no Paço Ducal de Vila Viçosa, a mais importante casa nobre portuguesa, foi feito por João Baptista Venturino da Fabriano, secretário do cardeal Alexandrino Miguel Bonello, enviado papal à corte portuguesa em 1571..."
... “Tem criação de escravos mouros, alguns dos quais reservados unicamente para fecundação de grande número de mulheres, como garanhões, tomando-se registo deles como das raças de cavalos em Itália. Deixam essas mulheres ser montadas por quem quiserem, pois a cria pertence sempre ao dono da escrava e diz-se que são bastantes as grávidas. Não é permitido ao mouro garanhão cobrir as grávidas, sob a pena de 50 açoites, apenas cobre as que o não estão, porque depois as respetivas crias são vendidas por 30 ou 40 escudos cada uma. Destes rebanhos de fêmeas há muitos em Portugal e nas Índias, somente para a venda de crias.”


...." No século XVI viveriam 350 pessoas no paço ducal e a criação de escravos teria lugar num terreno ao lado da casa principal, uma zona ainda hoje conhecida pelos trabalhadores locais como a “ilha”. Atualmente só resta o chão, coberto de pedras, nas imediações do picadeiro e do local onde terá estado o torreão onde, em 1512, foi degolada D. Leonor, de 23 anos, pelo seu marido, o quarto duque de Bragança, D. Jaime, acusada de ter um pajem de 16 anos por amante."
É o resultado de estudos de documentação da Biblioteca da Ajuda, mantida mais ou menos secreta durante séculos e que o Expresso de 8 de Dezembro de 2015 relata extensamente como podereis ver.   Outro link

2018/03/25

Raimundo Narciso em entrevista ao Jornal I - 2014-04-09 - Clandestinidade, 25 /NOV, MFA

No grupo "Fascismo Nunca Mais" obra da Helena Pato que tem granjeado os mais encomiásticos elogios e até apelos a condecoração! apareceu há dois dias /2018-03-23) um artigo que remete para uma entrevista que dei ao Jornal I, em 9 Abril de 2014.
A entrevista suscitou alguma curiosidade aos visitantes do Facebook mas entretanto o link não leva a lado nenhum porque a entrevista deixou de estar on line. Para remediar tão grande prejuízo ofereço-vo-la aqui - homem prevenido vale por dois - pois guardei-a numa das prateleiras do meu computador.
Ei-la:
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Raimundo Narciso. "Estive no lado certo da barricada no 25 de Novembro"

Por Nuno Ramos de Almeida
publicado em 9 Abr 2014 - 12:49


Controlou homens armados. Teve uma vida saída de um filme de aventuras. Passados 40 anos continua a acreditar na Revolução de Abril

Foi um dos grandes responsáveis da ARA, organização armada ligada ao PCP. Viveu o 25 de Novembro no sector militar dos comunistas. Foi expulso deste partido depois do golpe de Estado contra Gorbatchev. Hoje, reafirma que voltaria a estar no lado dos derrotados do 25 de Novembro.

O PCP sabia do 25 de Abril antes dele ter acontecido?
Sabia seguramente, não sei se conhecia os pormenores operacionais, mas havia um sector do PCP chamado "sector militar" que tinha contactos com oficiais que estavam ligados ao Movimento das Forças Armadas.
E na altura estava no sector militar
A ARA tinha cessado as acções em Maio de 1973, eu estava num interregno. Não estava ainda no sector militar, havia algumas pessoas que, estavam ligadas à ARA, tinham contacto directo com pessoas ligadas ao movimento dos capitães. Lembro--me de um, o Jorge Trigo de Sousa, com o qual fiz uma aposta, ele disse-me: "Na próxima semana os militares vão sair e tomar conta disto, não vai ser como as Caldas da Rainha". Mas eu, depois do fracasso das Caldas da Rainha, não estava muito optimista. Fiz uma aposta com desejo de perder, apostamos um almoço e eu perdi, mas ele, tendo em conta os salários de miséria dos funcionários do PCP, achou melhor pagar o almoço que foi com pompa e circunstância na Churrasqueira do Campo Grande.
Quando se dá o 25 de Abril, mantém-se na casa? Há alguma orientação?
Só voltei a ter contacto com o PCP, em concreto com o Jaime Serra, uma semana mais tarde. Ainda que com cautelas, saímos logo. Assisti à libertação dos presos em Caxias. E comecei a sair e a contactar as pessoas, achando que as coisas iam no bom caminho.
Passou na altura para o sector militar?
Sim, já tinha lá estado antes, quando estava na universidade e fui chamado a cumprir o serviço militar obrigatório.
Já em plena guerra colonial?
Sim, e a minha militância no PCP dividiu-se entre o sector universitário, no Técnico e Ciências, e no sector militar. Era aliás aí que estava organizado quando me foi dado, juntamente com o Rogério de Carvalho, a missão de fazer o levantamento de meios para a ARA.
O PCP tinha como orientação que os seus quadros deviam fazer o serviço militar obrigatório e não desertar, essa orientação era cumprida?
Acho que maioritariamente sim, mas havia excepções, eu conheci vários militantes que tendo tido a oportunidade de fugir ou emigrar, o fizeram. Nomeadamente algumas pessoas ligadas à ARA. De qualquer modo, cheguei a ter ecos do trabalho no terreno de alguns militantes do PCP que seguiram para a guerra com essa orientação. Recordo-me de relatos de companhias comandadas por oficiais milicianos a quem tinham dado determinado objectivo e que andavam às voltas com as viaturas para justificar a quilometragem, mas que evitavam o confronto com os guerrilheiros.
Qual era a resposta de um militante do PCP numa situação de combate com a guerrilha? Não havia um dilema?
As indicações que nos davam era que em guerra e aos tiros, tínhamos de nos defender, não se trata de dar o corpo às balas. Procurávamos era evitar essas situações conforme a capacidade e inteligência de cada um.
Acha que essa orientação pode ter contribuído para ajudar o 25 de Abril?
Não digo que seja responsabilidade exclusiva do PCP, mas a influência das lutas populares, e as lutas estudantis, que levavam à tropa elementos muito politizados que entravam em contacto com os oficiais do quadro permanente foram factores muito importantes de esclarecimento político.
Sai da tropa, vai imediatamente para a ARA, ou regressa às movimentações estudantis?
Parti para a clandestinidade, no Sud-Express no fim de 64. Tinha terminado a tropa em Dezembro de 1963. Nesse interregno, de perto de um ano, eu estava no Técnico, mas mesmo durante esse período eu continuei a ter trabalho com os militares e estava organizado no sector militar. Aliás, foi seguramente isso que me poupou à grande vaga de prisões da Pide no sector estudantil, visto que aqueles que foram presos e falaram não me conheciam como militante.
Como foi essa passagem para a clandestinidade, de comboio?
Tinha tido um convite insistente para passar à clandestinidade dois anos antes. Na altura recusei. Mas passados dois anos, as minhas responsabilidades no PCP aumentaram, e eu, como boa parte dos militantes do sector estudantil, defendíamos a necessidade de acções armadas, e depois parecia-me ser uma quebra de coerência defender essas acções e depois achar que deviam ser feitas por outros.
Foi a Paris para se encontrar com Álvaro Cunhal?
Não, fui a Paris para apanhar um comboio para Genebra e daí fui para Zurique, de onde segui de avião para Praga e depois para Moscovo. Só aí encontrei Álvaro Cunhal. Não foi necessária apresentação, já tinha ideia de como ele era, a sua figura carismática mostrava imediatamente quem estava diante nós. Conheci-o nesse momento, juntamente com o campeão das prisões políticas portuguesas, o Manuel Rodrigues da Silva que passou 23 anos na cadeia.
O que é que sentiu nesse duplo encontro com Moscovo e Cunhal?
Ele era uma pessoa bastante cativante. O primeiro encontro foi informal, a reunião de trabalho foi marcada para dois dias depois, no denominado "hotel do partido", sítio em que o PCUS [Partido Comunista da União Soviética] alojava dirigentes e convidados de partidos comunistas estrangeiros. Essa primeira reunião com Cunhal serviu para ele nos dar o seu ponto de vista do que deviam ser as acções especiais. Trocámos opiniões. Ele procurou conhecer o que já havia. Nós já tínhamos feito algum trabalho de aquisição de armas e montagem de infra-estruturas. Estivemos menos de 15 dias em Moscovo e depois seguimos para Cuba, onde estava previsto ministrarem-nos formação militar. Tanto eu como o Rogério já tínhamos tido treino militar, o mais importante para mim, e suponho que para ele, foi termos visitado toda a ilha num Cadillac americano descapotável.
Não havia por parte do PCP uma certa desconfiança na formação dos cubanos, eles não tinham tendência a querer influenciar ideologicamente os seus formandos?
Não me foi dado nenhum sinal nesse sentido. Mas de facto isso aconteceu com uma segunda leva de quadros formados em Cuba, destinados à ARA, que não chegaram ao campo de batalha.
E o que aconteceu a estes?
Não sei em pormenor o que se passou. Sei que eles eram todos quadros que viviam exilados. Depois, não sei se por influência dos cubanos, o certo é que, regressados a Paris, desinteressaram-se do regresso a Portugal. Tirando um, de nome Cruzeiro, que vinha para Portugal já não ligado ao PCP e foi apanhado num bar em Madrid com uma pistola de guerra no bolso, coisa que não era propriamente o procedimento dos militantes do PCP.
Voltaram a mandar militantes para Cuba?
Houve um terceiro grupo que se preparou mas já na União Soviética. Esse grupo integrava, entre outros, o Francisco Miguel, que apesar de ter passado 22 anos nas cadeias insistia com a direcção do PCP para regressar à clandestinidade e participar em acções armadas. Esses vieram e mantiveram-se até ao fim. Quando escrevi o meu livro [sobre a ARA] falei com todos, e mostrei-lhes o que escrevi. Houve alguns que pediram para não figurar.
Falou com Jaime Serra?
Falei com o Serra, não directamente, para lhe pedir uma fotografia e poder mostrar-lhe o texto sobre ele no livro. Mas ele não só não deu a fotografia como não quis ver os textos. Tudo o que vem sobre ele é de minha exclusiva responsabilidade, mas como tudo o que lá digo é elogioso e corresponde à realidade não creio que ele estivesse em desacordo.
Mas chegou a falar com ele depois de ter saído do PCP?
Não.
Tinha uma relação muito próxima com ele?
No XV Congresso do PCP no Porto, tempos antes da minha expulsão do partido, recordo-me que tinha pedido para intervir no congresso e, como não me davam a palavra, ameacei que ou me davam a palavra ou falava para as televisões que mo tinham pedido; nessa altura o Serra teve uma longa conversa comigo nos bastidores do congresso, bastante amigável e interessante, contando-me o seu percurso e as divergências que tinha tido e dizendo-me que era importante, apesar das diferenças de opinião, não cortar as amarras com o partido.
Conhecendo hoje como correu a Perestroika, teria a mesma posição de apoio a esse processo?
Depois de sabermos o que aconteceu revemos as nossas opiniões, mas em cada momento apenas podemos contar com aquilo que aconteceu e não com o que poderá vir a suceder. O grupo que se tornou dissidente do PCP teve parte da sua fundamentação crítica na Perestroika. Esse processo vinha confirmar um conjunto de dúvidas que tínhamos sobre o que se passava na União Soviética, e sobre o seu afastamento dos ideais comunistas.
Este movimento de dissidência tem bastantes pessoas no sector militar e no sector de informação e segurança?
Nós estávamos obrigados, por uma orientação a que aderimos voluntariamente, a transmitir a orientação da direcção do PCP. Eu, aos muitos militares com quem falava, nunca dei a entender sequer que havia divergências. Para muitos foi surpresa a minha saída. Alguns aproveitaram esse pretexto para se afastarem do PCP, alguns provavelmente com receio que esses contactos pudessem comprometer a sua carreira profissional.
Vocês foram expulsos do PCP e, no entanto, eram depositários de segredos do partido, como é que faziam essa gestão? Nunca foram abordados para que revelassem essas informações?
Havia um compromisso com a direcção do PCP e com os militares que a sua situação não devia ser conhecida, acho que é meu dever manter esta reserva. Nunca dei qualquer informação sobre quem é que tinha, ou não, ligações com o PCP.
No livro da Zita Seabra ela acusa-o de lhe ter colocado escutas em casa.
(risos) É uma infame mentira de uma mentirosa. Ela sabe que eu nunca fui a casa dela. Não entendo por que razão o meu nome aparece ali. Quando soube que ela tinha publicado que eu ter-lhe-ia posto escutas em casa, telefonei-lhe para a Assembleia da República, era ela deputada do PSD. Falei-lhe ao telefone e disse-lhe: "Dizes no teu livro que eu fui a tua casa, ora eu nunca lá fui, como sabes". E ela respondeu-me atrapalhada: "Disseram-me que tinhas lá estado". "Mas tu não estavas lá?", perguntei eu. "Sim, mas fiz confusão". Ela ficou na primeira oportunidade de desmentir isso. Depois, interpelada no "Correio da Manhã" sobre o meu desmentido, ela diz com um ar muito empertigado: "não tenho nada a alterar". Deixei de ter por ela um mínimo de consideração.
Mas houve alguma ida a casa dela ou de outras pessoas?
Aquilo que me contaram, posteriormente, foi que o Domingos Abrantes lhe pediu se ela autorizava que fossem a casa dela com um aparelho para detectar escutas, porque receavam que ela pudesse estar a ser espiada. Ela esteve de acordo, e foi com o acordo dela que foram três ou quatro pessoas do PCP, ligadas aos serviços de defesa do partido. Um deles, ligado aos sectores dissidentes, confidenciou- -me recentemente: "Nós fizemos uma vistoria superficial, achámos que aquilo não tinha pés nem cabeça".
Voltando à ARA, demoraram cinco anos a fazer a primeira acção. Porquê?
É verdade, de 1965 a 1970, houve muitas peripécias. A primeira foi a prisão do Rogério de Carvalho que dirigia a instalação da ARA comigo. As prisões tinham sido muito elevadas na zona de Lisboa e a direcção do PCP propôs-me que fosse frequentar um curso do Konsomol em Moscovo para dar tempo a reconstituir as condições para o trabalho conspirativo. Com a chegada do Jaime Serra deu--se um grande impulso, era uma pessoa muito influente na direcção do partido, membro da sua comissão executiva.
A primeira acção conseguida é a sabotagem do paquete Cunene?
Sim, em que insiste em participar o Gabriel Pedro, já com 70 anos, mas que tinha muita experiência do Tejo, e conhecia bem o porto de Lisboa. "Raptou" uma chata a remos e ele e o Carlos Coutinho com as cargas explosivas, confrontam-se com uma situação inesperada: junto ao Vera Cruz, que era o objectivo da acção, estava a Guarda Marítima. Eles adaptaram-se e descobriram um outro alvo: o mais moderno navio de transportes da frota portuguesa, o Cunene, curiosamente construído nos estaleiros Lenine em Gdansk . Os jornais até deram uma grande cobertura às explosões. Durante muito tempo a Pide não sabia o que era aquilo. Só cerca de três ou quatro meses depois, na sequência da acção de Tancos, é que eles começam a ligar a ARA ao PCP.
Como é que Tancos lhes dá essa pista?
As principais acções, Tancos e os ataques à Nato, têm atrás de si elementos de informação que são decisivos. Esta informação era muitas vezes canalizada pelo PCP e não pela pequena organização da ARA. No caso de Tancos é o Jaime Serra que nos põe em contacto com um piloto de helicópteros da base, o Ângelo de Sousa. Na conversa que tivemos com ele, disse--nos: "A gente podia obter as chaves do hangar dos aviões e sabotá-los", "como obter a chaves?", pergunto-lhe eu. "Muito simples, é que lá toda a gente vai roubar gasolina ao hangar". E assim foi, ele trouxe a chaves num fim-de-semana e nós fizemos um molde em sabão. Foi uma acção que exigiu muita coragem do comando que lá foi.
A acção de Tancos é uma acção marcante, vocês destroem grande parte dos meios da Força Aérea Portuguesa
Destruímos toda a frota de instrução de pilotos para as guerra coloniais. Eram cerca de 30 aeronaves. Foram usadas 20 cargas explosivas, mais uma série delas incendiárias, ligadas por uma rede eléctrica. A acção decorre assim: o Carlos Coutinho vai fardado de alferes da Força Aérea, leva o Ângelo de Sousa, que era furriel naquela base, e, no banco de trás do carro, mascarado de cabo da Força Aérea, o António João Eusébio. Cumprimentam o sargento que está na porta de armas, dizendo: "Vou aqui com uns amigos da base da Ota ao bar". Estacionam perto do hangar. Entram e fazem toda a colocação das cargas explosivas às escuras.
Qual é o momento em que vocês percebem que têm cerco montado por parte da Pide?
Quando é preso um funcionário, membro do Comité Central, Lindolfo. Passados alguns meses chega-nos a informação, via partido, que ele podia conhecer alguns dos operacionais, nomeadamente o Carlos Coutinho, Ramiro Morgado e Manuel Policarpo. Porque eram pessoas que estavam na organização dele e foi-lhe exigida a sua transferência. Tanto eu como o Francisco Miguel começámos a avisar esses camaradas de que deviam fugir. Mas deixarem a sua vida era muito complicado e eles subestimaram esse perigo.
Em que circunstâncias se dá o atentado ao Lindolfo [o antigo militante do PCP tinha passado a colaborar com a Pide e é metralhado e sobrevive]?
Há quem afirme, como a Pide, que foi o PCP. E até a ARA. Não tenho nenhuma opinião sobre isso. Suponho aliás que outros atentados que são apontados ao PCP sejam do conhecimento, para além do executante, de mais uma outra pessoa que tenha o poder de decidir. Há quem diga que foi a Pide, mas não me inclino para isso, porque ele estava a colaborar com a polícia política.
Onde é que estava no 25 de Novembro?
(risos) Naturalmente no âmago dos acontecimentos. Em todo esse processo o meu trabalho era estar com os oficiais do quadro permanente do MFA, procurando, não só dar-lhes a conhecer as orientações do PCP, como atraí-los para esses ideais. Tentava-se conseguir que eles se identificassem com o partido ou também neutralizar a sua hostilidade.
Chegou a falar com Jaime Neves?
Cheguei a almoçar ao mesmo tempo que o Jaime Neves, no Regimento de Comandos, quando lá estive. Os comandos têm essa particularidade, o comandante e os oficiais não almoçam numa messe separada dos soldados. Eu fui lá almoçar com um oficial, o qual não me lembro exactamente do nome. Não cheguei a falar com o Jaime Neves.
Se o PCP tivesse querido, os comandos não teriam saído no 25 de Novembro?
Há um conjunto de ideias completamente disparatadas...
Mas havia militares do PCP nos comandos, eu pelo menos lembro-me do filho de um dirigente histórico do partido...
Durante todos esses momentos eu contactei, perto do regimento, com muitas dessas pessoas. Alguns dos elementos próximos do PCP nem sempre actuavam da melhor maneira. Mas eu li recentemente afirmações da historiadora Raquel Varela, que garante que o PCP colaborou no 25 de Novembro com o PS e a direita na eliminação dos militares de esquerda do MFA. Isso não tem nenhum fundamento e são completamente absurdas. Estive quase para acrescentar uma informação: certamente o Álvaro Cunhal no Verão anterior, para preparar o 25 de Novembro, mandou incendiar as sedes do PCP pelo país fora. O PCP, no 25 de Novembro, fez tudo o que estava o seu alcance no sentido de defender a revolução e as suas conquistas, mas naturalmente que frequentes actividades aventureiras de alguns sectores militares ajudaram o trabalho da parte contrária.
Mas o PCP não fez, no 25 de Novembro, com que os fuzileiros não saíssem?
Não é verdade. Com a saída dos comandos havia uma força operacional capaz de se opor com vantagem numérica e operacional que eram os fuzileiros. Mas os fuzileiros na altura disseram: "Nós somos uma tropa especial e só saímos se saírem todos e saímos de acordo com a linha de comando e se não for assim não saímos". Não estou a dizer que o PCP quisesse que eles saíssem e eles recusaram. O que houve foi um levantamento durante todo o dia das possibilidades do que se poderia ou não accionar. O problema não se resolveria com a confrontação militar. Se os fuzileiros saíssem podiam vencer os comandos, mas o país estava muito dividido. A parte do país favorável à revolução era minoritária. Poder-se-ia ganhar alguma batalha, mas o que estava no horizonte era uma derrota. Finalmente, o PCP não comandava militares. Aqueles que eram mais próximos ideologicamente tinham as suas linhas de comando, havia o Otelo e os gonçalvistas, mas eles não iam à Soeiro Pereira Gomes [sede do PCP] perguntar o que deviam fazer.
A esta distância como lê o 25 de Novembro?
Tive a oportunidade de dizer isto várias vezes: o 25 de Novembro foi o resultado de uma sucessiva confrontação de forças dos dois sectores. A saída dos paraquedistas para tomar bases aéreas foi feita perante a ameaça que a Força Aérea pudesse bombardear as forças de esquerda, mas quando saíram não tinham nem plano, nem forças preparadas para suster uma reacção. A esquerda não estava preparada para a execução de um golpe ao contrário da direita militar.
Olhando para trás, esteve no lado certo no 25 de Novembro?
Eu disse uma coisa que criou um grande escândalo na sede do PCP: "No 25 de Novembro eu e o PCP fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para o triunfo das forças revolucionárias, mas tenho impressão que se calhar foi melhor assim. Se ganhássemos aquela batalha, talvez perdêssemos a guerra com mortos e feridos".
Se voltasse atrás, com o PS do outro lado, estaria no mesmo campo?
Sem dúvida que estaria do campo da revolução. Joguei sempre do lado certo. Acho que tive a posição certa no 25 de Novembro.

2018/01/28

EDMUNDO PEDRO deixou-nos

Faleceu ontem, o nosso querido amigo Edmundo Pedro. Faria 100 anos em Novembro. Foi um lutador incansável pela liberdade até ao fim dos seus dias. Foi um combatente intrépido contra a ditadura salazarista cujo ódio o vitimou e a toda a sua família de forma terrível. 
Os seus três grossos volumes de memórias contam-nos de forma empolgante a sua prodigiosa e dramática vida e da sua família.
Foi um fervoroso comunista na sua adolescência e juventude. Depois afastou-se do PCP e da sua ideologia. Foi fundador do PS e um seu destacado activista até ao fim da vida.
Jovem, então membro destacado da organização da Juventude Comunista, mais uma vez dirigiu uma acção de agitação, um comício relâmpago, na Escola Comercial Veiga Beirão após o que todos fugiam cada um para seu lado para evitar a polícia. Assim fizeram mas o irmão com 14 anos foi apanhado por um grupo fascista, a "Liga 28 Maio" (data da chegada de Salazar ao poder) que o espancou com tal violência que o matou.
                             No 90º aniversário de Edmundo Pedro, na FIL, em 2008

Edmundo foi preso pela primeira vez, durante um ano, aos 15 anos e pouco depois, em 1936, foi de novo preso e enviado para o "Campo da Morte do Tarrafal" em Cabo Verde, na primeira leva de prisioneiros para aquele campo de concentração em que ia preso também o seu pai Gabriel Pedro e de onde saiu apenas 9 anos depois. A sua juventude, dos 17 aos 27, passou-a ali, naquele desespero, onde tantos prisioneiros morreram por maus tratos, pela insalubridade do local, pela recusa de assistência médica. 
Conheci o Gabriel Pedro na Associação 25 de Abril nos anos 90 e foi ele que me forneceu dados para compor uma mini biografia do seu pai, exemplo de coragem e bravura, no livro que publiquei sobre a Acção Revolucionária Armada - ARA, em 2000.  A vida de Gabriel Pedro é igualmente empolgante. Depois de Tarrafal e de todas as prisões políticas, do Aljube a Peniche, tal como sucedeu com o filho Edmundo, estava ele exilado em Paris, e pediu insistentemente ao PCP (Gabriel Pedro entrou e saiu várias vezes do PCP mas morreu seu militante) para vir clandestinamente a Portugal para participar na primeira acção da ARA e assim sucedeu foi ele com Carlos Coutinho o homem da sabotagem do Cunene o mias moderno transporte de carga para abastecimento das guerras coloniais. Tinha 70 insistiu e veio participar na luta armada,  na sua luta de sempre contra a ditadura. 
Tal pai tal filho! Heróis a não esquecer.
Gabriel Pedro foi também um destacado defensor da Memória da luta contra a ditadura. Com 87 anos foi um dos fundadores do Movimento Não Apaguem a Memória - NAM e até ao fim da sua inextinguível energia uma activista ou principal actor das suas iniciativas.
No meu blog MEMÓRIAS fiz uma busca por "Edmundo Pedro" e está aqui o link para a descrição de muitas das suas participações no NAM 
         
Deixo também algumas fotos de iniciativas do NAM onde temos o nosso grande Edmundo Pedro.

 5 Out 2006 1º aniversário do NAM
 Edmundo Pedro e Nuno Teotónio Pereira descerram lápide no Tribunal Penário
 Na manifestação organizada por Artur Pinto, no NAM, com ex-presos junto do Aljube em 2006

 No Aljube em 2006 nas traseiras do edifício do Aljube que o NAM levaria a museu 
  No Aljube na inauguração da grande exposição " A Voz das Vítimas", em 2011
 No Aljube na inauguração da grande exposição " A Voz das Vítimas", em 2011
 Na inauguração do Postalete  junto da antiga sede da PIDE 
 Tarrafal

Edmundo Pedro no colóquio sobre o Tarrafal na Assembleia da República em 29 de Outubro de 2008

2018/01/02

De LISBOA A OLISIPO

Agora que entrámos pelo 2018 adentro lembrei-me de olhar para trás. Admitindo que a coisa estava como o vídeo nos diz não há dúvida que estava um pouco diferente. É pena não nos levar um pouco mais longe, uns 10 ou 15 mil anos lá para trás. Ou apenas ao tempo em que os egípcios ergueram as pirâmides de Gizé.  A de Keops, a de Kefren ou a de Mikerinos cujos nomes o liceu nos obrigou a decorar. Cheguei a vê-las do alto do avião que me trazia da Etiópia, quando em Setembro de 1977, estive em Adis-a beba, a participar, como convidado, nas comemorações do 3º aniversário da revolução que derrubara o imperador Haile Selassie. Atrasaram-se 5 meses em relação a nós.

2017/12/24

A Maravilhosa ANNA NETREBKO

Anna Yuryevna Netrebko (em russo: Анна Юрьевна Нетребко) é uma soprano russa bastante
conhecida e admirada pela sua voz sumptuosa e pela sua beleza.
Começou a trabalhar lavando chãos no Teatro Mariinsky de São Petersburgo ("casa" da Ópera de Kirov). Lá, ela chamou a atenção do maestro Valery Gergiev, que se tornou seu orientador vocal. Guiada por Gergiev, ela fez a sua estréia no Mariinsky como Susanna em Le Nozze di Figaro (“As Bodas de Fígaro”). Depois disso, ela desempenhou diversos papéis junto com a companhia como Pamina em Die Zauberflöte (“A Flauta Mágica”) e Rosina em Il Barbiere di Siviglia (“O Barbeiro de Sevilha”).
Netrebko nasceu em Krasnodar (Rússia), em 18 de Setembro de 1971 numa família de origem cossaca de Kuban. Quando estudante no Conservatório de São Petersburgo...    Link

2017/12/10

Daniel da Cruz um português norte-americano

Daniel da Cruz, de Vilar do Cadaval, era irmão do meu pai Manuel da Cruz Narciso. Foi padre franciscano e missionário em Moçambique (1906-08).
Como missionário em Moçambique na região de Xai-Xai revelou a sua grande curiosidade científica que se traduziu em artigos que foram sendo então publicados na Gazeta das Aldeias e na revista franciscana A Voz de Santo António onde são referenciados 50 artigos sobre a população autóctone, economia, costumes, relações familiares, religiões e sobre a geografia local, a flora e a fauna nomeadamente artigos sobre os insectos. O bicho da seda, as borboletas, os grilos, as abelhas, e bicharada local de outra corpulência.
Estes artigos estão na base do livro que então, a pedido da Gazeta das Aldeias, publicou em 1910 "Em Terras de Gaza" (Porto - Gazeta das Aldeias, Rua Sá da Bandeira, 257 - 1º 1910).

Consegui, 117 anos depois, obter um exemplar numa livraria de Braga. Mas tive de calcorrear o país de lés a lés, do Algarve ao Minho, cidades e vilas, para o encontrar. Tudo em apenas 20 minutos, pela internet, é claro. Imaginaria, em 1910, Daniel, este  mundo novo? 

Em 1910 abandonou o sacerdócio e as crenças religiosas e emigrou para os EUA onde veio a falecer em 1966 com 86 anos. 
Nos EUA obteve uma licenciatura em Biologia área em que se doutorou. Pessoa de grande curiosidade científica dedicou-se também ao estudo de astronomia e de línguas. Foi professor na Universidade de Princeton e na Universidade de Ohio. Publicou vários livros com estudos nestas áreas. Ofereceu-me um dos seus estudos sobre a Bíblia e a religião católica.

Casou com Lenore Rager de quem teve dois filhos, Francisco e Daniel que seguiram um o ensino universitário. e outro a carreira diplomática. Após separação de Lenore casou uma segunda vez, agora com Louise.


Sofria de dificuldades respiratórias e assim que se reformou mudou-se para a zona montanhosa do Colorado, para a cidade de Colorado Springs. Ele o filho Daniel, o neto Danny e a sua 2ª mulher Louise, cada um em diferentes momentos, visitaram Portugal, a terra natal e estiveram na casa dos meus pais em Vilar. Só não estive com Louise em 1971 porque estava então "emigrado" cá dentro.
Entre as visitas de Daniel ao estrangeiro a que mais o atraía e satisfez foi, seguramente a visita aos lugares da Terra Santa que fez quando já ateu há muitos anos mas "terra santa" durante a sua juventude.
Junto imagens de Daniel quando era padre em 1908, com a mulher, Louise, em Colorado Springs, uma com sobrinhos netos em Vilar em 1953, outra da primeira mulher e mãe dos filhos, Lenore Susan Rager, uma do filho Daniel no Vilar e por último uma da capa do seu livro sobre a sua participação missionária franciscana em Moçambique publicado em 1910.
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Frei David Azevedo, franciscano do convento do Varatojo (concelho de Torres Vedras) e natural de Vilar do Cadaval, foi colega e conterrâneo de Frei Daniel da Cruz de quem elaborou, nos anos 90 um projecto de biografia de que aqui apresento um resumo:

MISSIONÁRIOS DO OESTE

FREI DANIEL DA CRUZ Naturalista Insigne.

A nossa região do Oeste usufruiu, nos finais do século passado e princípios deste, da influência de dois notáveis focos, não só de vida cristã, mas também de cultura, que foram o convento de Varatojo e o convento de S. Bernardino, o primeiro reaberto em 1861 e o segundo, em 1884. No primeiro fundaram os franciscanos a primeira escola primária do concelho de Torres Vedras, em 1866, logo seguida dum colégio para meninas. No segundo, que formalmente destinado a colégio seráfico ou seminário menor da Ordem Franciscana, também logo se abriu, após a sua aquisição, uma escola primária para os rapazes das localidades vizinhas. Os dois focos, naturalmente, atraíram a atenção das famílias, da região de Torres Vedras, para Varatojo, e da região mais ao norte, desde as encostas do Montejunto até ao mar, para S. Bernardino. 

Neste contexto brotou a vocação franciscana de mais um missionário do Oeste, Frei Daniel da Cruz. Nasceu no Vilar, no dia 1 de Março de 1880, filho de João da Cruz Narciso e de Joana das Dores; e lá foi baptizado com o nome de Manuel Maria. Vestiu o hábito franciscano- em Varatojo  no dia 25 de Setembro de 1896 e professou no dia 30 de Novembro de 1897, com o nome de Frei Daniel da Cruz. A meio dos estudos de filosofia e teologia, que começou em S. Bernardino e, a partir de 1900, continuou em Montariol (Braga), forçado pelas perturbações causadas pelo decreto de Hintze Ribeiro, de 10 de Março de 1901, que reactivou a animosidade anticongreganista do liberalismo, refugiou-se em Espanha, com outros companheiros, onde prosseguiu os estudos na província franciscana da Bética (Sevilha). 
Ordenado sacerdote em 1904, em 1 de Outubro de 1906 embarcou para Moçambique, chegando à Beira no dia 4 de Novembro. No dia 8 do mesmo mês foi colocado como coadjutor na recém-criada missão do Chongoene (Xai-Xai), em terras de Gaza.                                                                                                       No Vilar com sobrinhos/netos
Não foi longa sua demora no campo missionário, porquanto, devido à agressividade do clima e à falta de recursos médicos, pouco mais de um ano passado em Moçambique, em 1 de Janeiro de 1908, doente, teve de regressar a Portugal. Mas se escasso foi o tempo, grande foi o seu empenho, não só na evangelização, mas também -e principalmente - no campo da ciência. 

Inteligente, observador e apaixonado pela natureza, dedicou-se ao estudo dos costumes indígenas e das riquezas naturais do mundo que o rodeava. Desse estudo resultou uma série de artigos que pouco a pouco foram aparecendo na Gazeta das Aldeias, que se publicava no Porto, os quais foram mais tarde publicados em livro, intitulado Em Terras de Gaza, Porto 1910. 

Dos seus conhecimentos africanos e da bagagem científica que adquirira no currículo de formação, pela mesma altura - 1905-1910 - vêm a lume, na revista franciscana, A Voz de Santo António, uns cinquenta artigos sobre os insectos. O bicho da seda, as borboletas, os grilos, as abelhas (cinco artigos), as cigarras, os ralos, as libélulas, os myrmeleões, as formigas (sete artigos), os escaravelhos, as carochas, as joaninhas, os morilhões, as moscas, os mosquitos, as vespas, os cynipes, os gafanhotos, as lagartas, as baratas, as aranhas, as pulgas e outros bichos da espécie, formam variegada e encantadora exibição nas páginas da revista. 
O campo científico do Frei Daniel da Cruz, dir-se-ia que não tem limites. Aparecem na referida revista artigos sobre a estrumeira, a agricultura, a higiene rural, a raiva, os terramotos (a propósito do terramoto de Messina) e ainda os trens Renard (sistema de transporte em estrada com locomotiva e vários atrelados); além das recensões de livros e revistas.
Em 22 de Outubro de 1910, poucos dias depois da implantação da República, refugia-se nos Estados Unidos, onde virá a abandonar o sacerdócio e a vida franciscana. Continuou, porém, sua paixão científica. Frequentou a Faculdade de Ciências da Universidade Católica de Washington, onde se graduou em 1915. Para efeitos de doutoramento apresentou o estudo intitulado A Contribution to the life-history of Lilium Ternifolium.

Foi professor na Universidade de Princetown e publicou vários livros. Muito embora sua vida tivesse enveredado por rumos diferentes daqueles que iniciara como franciscano, manteve sempre um espírito liberal, característico aliás da escola franciscana de Montariol e da revista A Voz de santo António, o encanto franciscano pela natureza e a inquietação e busca de Deus. Veio a falecer em 27 de Dezembro de 1966, no Estado do Colorado. Figura notável que merece ser mais conhecida., principalmente na nossa região.

2017/12/09

Hvorostovsky e Garanca - deslumbramento

Hvorostovsky era um barítono com uma voz deslumbrante. Morreu em 22 de Nov de 2017, com 55 anos devido a um tumor no cérebro. Aqui vêmo-lo com a bela mezzo-soprano Garanca que tem uma voz não menos esplendorosa. Ele é russo de Krasnoyarsk e ela letã de Riga, nascida a 16 de Set de 1976.


«O crítico britânico Norman Lebrecht, da BBC3, recordou o barítono russo, como "o melhor 'Eugene Onegin' da atualidade, o Don Giovanni mais sensual e o dominante Rigoletto", numa referência às suas interpretações dos protagonistas de Tchaikovsky, Mozart e Verdi.
Nascido na cidade de Krasnoyarsk, na Sibéria, Hvorostovsky desenvolveu uma carreira de renome desde a década de 1980, depois de escapar a uma vida nas ruas, enquanto adolescente, e de conseguir ultrapassar um problema com o álcool que podia ter posto fim a um percurso aplaudido pela crítica e pelos públicos que o viram e ouviram, como recorda o New York Times.
Em 1989, venceu a competição internacional de canto lírico, em Cardiff, no Reino Unido, batendo o barítono Bryn Terfel.
Segundo a biografia patente no 'site' oficial, o Hvorostovsky foi o primeiro cantor de ópera a realizar um concerto a solo com orquestra e coro na praça Vermelha, em Moscovo, que foi transmitido em mais de 25 países.
Em maio, apresentou-se na Metropolitan Opera Gala, em Nova Iorque, onde surpreendeu o público presente com uma aparição inesperada em palco, para cantar "Cortigiani, vil razza dannata", do "Rigoletto", de Verdi. No mês anterior, cancelara a participação no elenco de "Eugeni Oneguin", de Tchaikovsky, naquele teatro.
Em junho, atuaria pela última vez, em Krasnoyarsk, a sua cidade natal.

2017/11/24

Katyucha por Hvorostovsky

Morreu esta, 4ª feira, 22/Nov. Chamava-se Dmitri Xboroctobcky. Era barítono. e, ao que consta, a voz mais poderosa da actualidade. Era russo, de Krasnoyarsk, na Sibéria. Um tumor na cabeça matou-o aos 55 anos. Vamos ouvi-lo a cantar a popular Katyucha.



Aqui dão notícia mais detalhada

2017/07/14

Entrevista de RN ao site iSLEEP

Em 15 de Julho de 2015 fui auscultado por Paulo Gaião,  responsável editorial do site iSleep para uma entrevista: 
"Na sequência do contacto telefónico, envio em anexo perguntas destinadas a entrevista ao site iSleep (www.isleep.pt) da Professora Teresa Paiva, especialista em medicina do sono, que se publica desde 15 de Janeiro de 2015."    
Recordo que os anteriores entrevistados foram António Mega Ferreira, Maria de Belém Roseira, Marcelo Rebelo de Sousa, Frei Bento Domingos, Alice Vieira, José Rodrigues dos Santos, Cristina Esteves, José Luís Peixoto, Elisabete Jacinto, Isabel do Carmo, Jacinto Lucas Pires. Katia Guerreiro, Fernando Dacosta, Maria do Rosário Carneiro, Alberta Marques Fernandes, Carlos Poiares e António Pinho Vargas. "

Teria aceitado mesmo sem a vantagem de me juntar a pessoas tão notáveis no panorama político/cultural pátrio.


“A CLANDESTINIDADE NÃO ALTEROU O MEU RITMO DE SONO”

Raimundo Narciso, ex-militante comunista, viveu na clandestinidade 10 anos (no site está "15 anos" mas não creio ter dado resposta errada) mas nem por isso o seu ritmo de sono se alterou. Foi um dos operacionais da Acção Armada Revolucionária, o braço armado do PCP antes do 25 de Abril. Diz ao iSleep que antes de uma operação “o sono era menos sossegado”.  Dormiu pouco no 25 de Novembro de 1975. “Foi uma noite agitada. Alguns de nós dormimos por turnos. Do que me lembro dormi muito pouco”.
O Raimundo Narciso tem um longo passado político que remonta a muito antes do 25 de Abril e à militância no PCP. Como antigo militante comunista que chegou a viver na clandestinidade, o sono era muito menos tranquilo?
Em certos momentos de maior perigo, o sono era menos tranquilo. Durante os dez anos de clandestinidade surgiram muitos desses momentos mas eram em geral episódios de uma noite. A clandestinidade não alterou o meu ritmo de sono.
Como foi visitar Moscovo penso que pela primeira vez em 1965? Que impressões trouxe?
Sem escamotear os aspectos profundamente negativos que levaram à falência do regime soviético, nomeadamente a falta de liberdade política, a característica mais impressiva que retive foi a de uma sociedade incomparavelmente mais igualitária e justa do que a do capitalismo.
Um estudo de Hight Pay Center (centro de reflexão independente) diz que os administradores executivos (CEO) de grandes empresas, no Reino Unido, tinham em 2014, um salário 183 vezes superior à média dos salários dos trabalhadores. Nos EUA os salários de alguns administradores executivos são ainda mais “obscenos”. Por exemplo, o CEO da McDonald, de acordo com David Michaels, da Bloomberg, ganha 644 vezes mais que o salário médio da empresa que dirige. Na URSS essa diferença medir-se-ia por cinco ou dez vezes no máximo.
Em Moscovo impressionava pela negativa a falta de habitação, atribuída às destruições da invasão nazi, ou a desoladora ausência de sofisticação no “design” da grande maioria dos produtos comerciais.
Pela positiva impressionava o ter-se emprego assegurado e a educação gratuita, incluindo a universitária, e o acesso fácil à cultura e à arte, a preços baixíssimos.
E como foi viver uns meses na URSS? Foi fácil adaptar-se à diferença horária?
Quanto ao sono não dei pela diferença de fuso horário.

Quanto à vida por lá, a frequência em 1966/7, de um curso no Instituto Superior do Konsomol ofereceu-me nove meses de contacto com a população de Moscovo e não só.

O curso permitiu o contacto com centenas de jovens de todas as repúblicas da URSS e de dezenas de países de todos os continentes.
Esse convívio, com a inerente troca de informação e de experiências culturais e políticas nacionais, foi um momento inesquecível. No entanto, havia uma  restrita e inconveniente diversidade ideológica, mesmo que uma parte dos alunos, quer da Europa e especialmente de África e Ásia, não fossem filiados em partidos comunistas.
E nos meses em que viveu em Cuba? Que impressões trouxe? Aqui o fuso horário era diferente e a diferença horária maior….
Quanto ao sono senti inicialmente a diferença de fuso horário e como a viagem durou cerca de 22 horas e tenho dificuldade em dormir nas viagens, cheguei a Havana praticamente com uma noite em claro. A viagem Moscovo-Havana fazia-se via Murmansk, cidade no Círculo Polar Ártico, e depois pelo Atlântico abaixo porque na altura os países da NATO não autorizavam a passagem de aviões soviéticos no seu espaço aéreo, o que obrigava a esta insólita rota.
Em Cuba o mais impressionante nessa altura, em 1965, era a intensa campanha do governo para mobilizar voluntários para o corte da cana-de-açúcar, principal fonte de riqueza da ilha. Era diário o anúncio nos media dos “campeões populares” no corte da cana em que também apareciam os hierarcas do regime, incluindo Fidel Castro. Ainda não tinham máquinas e o corte em poucas semanas de milhares de hectares de cana exigia milhares de “macheteros”.
Visitei o bairro chique de Havana onde, antes da revolução, só entravam brancos, principalmente norte-americanos com criados negros, e agora tinha as luxuosas vivendas, palácios e palacetes já um pouco degradados maioritariamente transformados em escolas dos mais diversos ofícios, bem como lares ocupados por jovens camponeses que nunca tinham visto uma cidade.
Havia ainda um investimento notável na educação e na formação de quadros científicos, em especial na medicina.
Há alguma história curiosa que recorde desses tempos na URSS e em Cuba?  
Em Moscovo vi os passageiros de um autocarro interpelarem um homem que entrou e se “esqueceu” de tirar o bilhete no dispensador de bilhetes à entrada do autocarro. Contrariado voltou atrás e lá meteu a moeda.
No Instituto Superior do Konsomol assisti à separação dramática e pungente, no fim do curso, de uma guatemalteca guerrilheira e clandestina de um colega universitário italiano não comunista. Tinham-se apaixonado mas nem o italiano se disfarçaria bem na guerrilha urbana, no caso pouco provável de se lhe querer juntar, nem ela aceitaria abandonar a luta de libertação no seu país e ir para Roma numa aventura incerta.
Em Havana, ao passear pela cidade deparei com um arraial popular fora do centro, muito parecido com os da minha aldeia. A insólita diferença surgiu no fim pois na minha terra a festa não findava com a banda a tocar a Internacional.
Noutra altura, em 1983, na iminência de um encontro de delegações de Partidos Comunistas com Fidel Castro disse ao meu jovem intérprete que não era indispensável ele ir comigo porque entendia bem a língua. Respondeu-me alarmado “não me faça isso! É a minha oportunidade de falar com o comandante em chefe!”
Em Portugal viveu em várias casas clandestinas. Sentiu que diferentes condições, de local e tipologia, lhe afectaram as rotinas do sono? 
Só aconteceu nalguns casos, apesar de vivermos sempre sob a tensão do perigo, do inesperado, obrigando-nos a pensar e programar toda a conduta quotidiana.
Em certo sentido a vida clandestina era um pesadelo sem intervalos. Mas quem se preparara para tal vida, a vida estranha do clandestino era afinal uma vida “quase” normal. Sucedeu assim comigo, uma vida sem pânicos e quase quase normal. Mas houve quem não aguentasse e rumasse ao estrangeiro e até quem enlouquecesse.
Dormia bem em geral. Só em determinados momentos a seguir a algum susto ou tensão inabitual o sono era perturbado. Porque habitual era a situação de perigo.
Desenvolveu acções armadas contra o antigo regime no quadro da ARA. Nas vésperas das acções era difícil dormir?
Nesses momentos o sono era menos sossegado. Não tanto pelo perigo em si mesmo mas pelo receio de que algum imprevisto pudesse inviabilizar o plano de acção meticulosamente preparado. A noite que antecedia as acções era sem dúvida menos serena procurando mentalmente prever todos os imprevistos.
Porque é que a ARA suspendeu a luta armada em 1 de maio de 1973?
Porque se considerou que na conjuntura política em 1973, caracterizada pela participação de novas camadas da população na luta contra o regime, particularmente por influência dos chamados católicos progressistas, as ações armadas dariam pretexto a maior repressão. Por seu lado, em vez de incentivarem poderiam atemorizar tais camadas da população que só timidamente surgiam na oposição ao regime.
O 25 de Abril, menos de um ano depois, tornou definitiva a suspensão das acções e o fim da ARA.

Há historiadores que consideraram que o comunicado da ARA a anunciar a suspensão das acções era apenas uma forma habilidosa de esconder que a organização fora desmantelada pela PIDE/DGS com a prisão, por denúncia, de oito dos seus principais operacionais entre Janeiro e Março de 1973. Na realidade essas prisões foram um golpe sério na organização mas a maior parte da ARA não fora atingida, nomeadamente o comando central, os quadros ilegais e a maior parte dos “legais” assim como toda a estrutura logística. A ARA estava em condições de prosseguir a sua actividade. Parece estranho, nos tempos que correm, que uma declaração política (comunicado da ARA de maio de 1973) possa ser inteiramente verdadeira e não apenas uma forma de ludibriar eleitores. Mas a ARA não concorria a eleições.


Após o 25 de Abril viveram-se tempos políticos muitos agitados, de homens e mulheres sem sono? Lembra-se de alguma história do PREC que envolva o sono ou a falta dele?  
Houve pelo menos três momentos em que se passaram noites sem dormir, três momentos cruciais de oposição ao processo revolucionário. Dois que, derrotados, aceleraram as mudanças, a manifestação da “maioria silenciosa” em 28 de Setembro de 1974 e a tentativa de golpe do general Spínola, em 11 de Março de 1975. E um que saiu vitorioso e pôs fim ao PREC, o golpe do 25 de Novembro de 1975.
Muitos comunistas estiveram fortemente mobilizados no 25 de Novembro de 1975. Como foi essa noite? Poucos pregaram olho?     
Foi uma noite agitada. Alguns de nós dormimos por turnos. Do que me lembro dormi muito pouco.
Conheceu bem Álvaro Cunhal. Que impressões guarda dele? Apercebeu-se, em alguma conversa, se era um homem com problemas para dormir? Ou pelo contrário, tinha um sono fácil? 
Era uma figura carismática, insinuante e de vasta cultura. Com uma capacidade de trabalho invulgar. Cunhal era um líder reconhecido e de uma craveira superior, mesmo no âmbito internacional.
Na primeira reunião do comité central do PCP em que participei, no estrangeiro, em 1972, e que durou quatro dias, Cunhal trabalhava incansavelmente, dormindo escassas horas por noite, e aparentemente não tinha sono de dia.
O que pensa da expressão Deus não dorme?
Dado o ” vale de lágrimas” em que boa parte da humanidade sobrevive – tenhamos presente a catástrofe humanitária dos refugiados no Mediterrâneo, provocada pela intervenção armada ocidental no Iraque, no Afeganistão, na Síria ou na Líbia –  a expressão “Deus não dorme” tende a provar que Deus ou não existe… ou então que dorme.

A sentença serve também para convocar os simples à resignação perante as injustiças terrenas, oferecendo-lhes a recompensa e o castigo dos maus mas… no céu.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”? 
Durmo bem e a tendência, depois de reformado, é para deitar tarde.
Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro?
Sim. Quando o problema é complexo e não tenho de decidir imediatamente, deixo sempre a decisão para depois de um bom sono e o resultado é bom.
Tem alguma história pessoal ou profissional divertida com o sono ou a falta dele? 
Quando cumpria o Serviço Militar Obrigatório no Quartel General da 3ª Divisão, em Santa Margarida, em 1962, passei três dias de licença em Lisboa envolvido em lutas académicas com duas noites sem dormir. Quando regressei ao quartel por estar suplente ao serviço de oficial de dia, fui acordado pelo meu “impedido”. Estremunhado perguntei-lhe se já tinha perdido o pequeno almoço? Respondeu-me: “Oh meu alferes são quase horas de jantar”.
Pode contar-nos um sono fantasioso que tenha tido?
Ia num voo de treino de pára-quedismo. Quando saltei do avião e voava alegremente dei pela falta do pára-quedas, então, na iminência de me esmagar no chão salvei-me acordando a tempo, em sobressalto e aos gritos.